Lenda da Gardunha

No tempo em que vieram os Mouros, com muitas guerras, havia na povoação de Idanha-a-Velha  um homem viúvo e rico que se casou com uma mulher muito mais nova que ele.
Esse homem tinha uma filha da primeira mulher, ainda pequena e muito linda, que a madrasta não tratava lá muito bem, ralhando-lhe por tudo e por nada.
A menina tinha um cão, que era seu grande amigo e a acompanhava para todos os lados.
A madrasta maltratava o cão, para fazer zangar a menina que era sua enteada. A menina chorava agarrada ao cão.
Um dia, a madrasta bateu com um pau no cão e a menina refilou com ela. Em resposta, levou duas lambadas da madrasta, que ainda lhe disse que, se dissesse alguma coisa ao pai, que a matava. A ela e ao cão.
A menina mais se pôs a chorar. Agarrou-se ao seu amigo cão e disse-lhe que iam os dois fugir de casa. Às escondidas, arranjou uma merenda com pão, queijo e chouriça, pôs um xaile pelos ombros e correram para fora da povoação. Avistando uma serra ao longe, a menina disse para o cão:
Farrusco, vamos para aquela serra, que nós lá nos arranjamos! Continuar a ler “Lenda da Gardunha”

Anúncios

Lenda da Lagoa das sete cidades

Conta a lenda que o arquipélago dos Açores é o que hoje resta de uma ilha maravilhosa e estranha onde vivia um rei possuidor de um grande tesouro e uma imensa tristeza por não ter um filho que lhe sucedesse no trono. Esta dor tornava-o amargo com a sua rainha estéril e cruel com o seu povo. Mas uma noite perante os seus olhos desceu uma estrela muito brilhante dos céus que aos poucos se foi materializando numa mulher de beleza irreal envolta em luz prateada. Com uma voz que mais parecia música essa mulher prometeu-lhe uma filha bela como o sol sob a condição que o rei expiasse a sua crueldade e injustiça através da paciência.

O rei teria que construir um palácio rodeado por sete cidades cercadas por muralhas de bronze que ninguém poderia transpor. A princesinha ficaria aí guardada durante trinta anos longe dos olhos e do carinho do rei. O rei aceitou o desafio. Decorreram 28 anos e com eles cresceram a impaciência e o sofrimento do rei, que um dia não aguentou mais. Apesar de ter sido avisado que morreria e que o seu reino seria destruído, o rei dirigiu-se às muralhas, desembainhou a espada e nelas descarregou a sua fúria.

A terra estremeceu num ruído terrível e das suas entranhas saíram línguas de fogo enquanto que o mar se levantou sobre a terra e a engoliu.

No fim de tudo, restaram apenas as nove ilhas dos Açores e o palácio da princesa, transformado agora na Lagoa das Sete Cidades dividida em duas lagoas: uma verde como o vestido da princesa e a outra azul da cor dos seus sapatos.

 

Lenda de Viriato e dos Lusitanos

Para se falar sobre a história do Viriato temos de começar por entender o seu mundo e o seu povo, os Lusitanos.

Estes eram povos de várias tribos que habitavam no oeste e noroeste da Península Ibérica, antes de estas terras serem conquistadas pelos romanos. Desde novos, os membros deste povo trabalhavam como pastores. Depois, à medida que iam crescendo eram treinados para a caça e por fim, quando se tornavam jovens fortes, eles eram treinados como guerreiros mercenários.

Tinham uma forma de lutar muito aguerrida e sempre ofensiva, e constantemente havia lutas entre tribos lusitanas e também com outras tribos vizinhas com o objetivo de conquistar essas terras.

Quando os romanos invadiram a Península Ibérica, eles foram conquistando progressivamente as terras do leste e do sul. No entanto, quando chegaram às tribos lusitanos, a dificuldade aumentou.

Essas tribos, que sempre haviam lutado entre si, uniram-se numa causa que era comum a todas elas: a luta contra os ameaçadores exércitos romanos.

Até conquistarem os terrenos das tribos lusitanas, os romanos tiveram que guerrear durante vários anos e, por fim, conseguiram o que tanto queriam mas, através de uma trama que envolvia traição.

Entre os lusitanos houve um guerreiro que se destacou na luta contra os romanos.

O seu nome era Viriato.

Viriato era um aristocrata, proprietário de várias cabeças de gado, que quando criança, à semelhança de todos os lusitanos, tinha sido pastor.

Mais tarde, ele tornou-se caçador e depois guerreiro.

Não sendo o rei dos lusitanos, Viriato era mesmo assim o seu líder durante o tempo em que esses povos se uniram na luta contra Roma.

O seu passado como pastor era semelhante ao dos grandes líderes de outras civilizações tais como Rómulo de Roma e David de Israel. Esse passado conferia-lhes qualidades especiais como governantes pela forma como lidavam e defendiam os seus povos de quaisquer ameaças.

Segundo diversos historiadores, Viriato era um homem que seguia princípios de honestidade, justiça e que sempre cumpria com os tratados e alianças que fazia com outros povos.

Por isso, ele detestava os romanos que, diversas vezes, não cumpriram com os acordos estabelecidos entre ele e os seus representantes.

Viriato – O Guerreiro

Após ser eleito chefe dos lusitanos, Viriato começou por defender as suas montanhas das investidas de Roma e depois passou ao ataque.

O objetivo era conquistar às terras à volta das tribos lusitanas para ampliar a área do campo de batalha e assim afastar as zonas de combate das suas terras.

Em 147 A.C., os lusitanos renderam-se perante as tropas de Caio Vetílio, que os haviam cercado. Mas, Viriato opôs-se terminantemente contra essa derrota. Ele organizou as suas tropas e foi lutar contra os romanos, acabando por derrotá-los no desfiladeiro de Ronda, que faz a separação entre a planície de Guadalquivir e a costa marítima da Andaluzia, onde acabaria por matar o próprio Caio Vetílio. Depois deste, as tropas de Viriato foram derrotando vez após vez as forças romanas sob os comandos de Caio Pláucio, Cláudio Unimano, Caio Nigidio e Fábio Máximo.

Em 140 A.C., os lusitanos comandados por Viriato infligiram uma pesada derrota sobre Fábio Máximo Servilliano, matando cerca de 3000 romanos em combate. Perante isso, Servilliano rende-se e em troca da sua vida ele oferece a Viriato promessas e garantias da autonomia dos lusitanos.

Mas, quando a notícia deste tratado chegou a Roma, o Senado considerou-o demasiado humilhante e, voltando atrás com a sua palavra, declara novamente guerra aos lusitanos.

Desta feita, em 139 A.C., Roma enviou o general Servílio Cipião, mas este também continua a ser constantemente derrotado por Viriato, de modo que, Viriato decide enviar três comissários da sua confiança, Audas,  Ditalco e Minuros, com o objetivo de forçar Cipião a pedir de novo a paz.

Mas, Cipião recorreu ao suborno destes comissários e prometeu-lhes que lhes dava uma recompensa se estes matassem Viriato. E assim aconteceu! Enquanto Viriato dormia, estes homens assassinaram-no, trazendo um desfecho trágico para Viriato e para os lusitanos. Mas este desfecho era também muito vergonhoso para Roma, pois como uma superpotência que era, recorrer a suborno era algo desastroso.

Depois da morte de Viriato, o exército lusitano passou a ser comandado por Táutalo Sertório.

As tropas lusitanas estavam muito enfraquecidas moralmente e acabaram por ser derrotadas. Quanto aos traidores, eles refugiaram-se em Roma após o assassinato de Viriato, reclamando o prémio prometido.

No entanto, os romanos ordenaram a sua execução em praça pública, onde ficaram expostos com os dizeres “Roma não paga a traidores”.

Dos lusitanos, pouco resta no país que hoje se chama Portugal, com exceção da sua denominação de Lusos e da conhecida personagem de Viriato.

 

Lenda dos corvos de São Vicente

Conta a lenda que o monge Vicente “sofreu suplício até à morte em Valência” quando por ali pregava o cristianismo. Os cristãos daquela cidade espanhola quiseram pôr a salvo o corpo do mártir e fugiram pelo mar. A viagem decorreu sem incidentes até chegarem a um promontório no Atlântico, altura em que uma tempestade os arrastou até às assustadoras “junto a uma terra muito bela com um grande promontório”.

O mestre do barco disse-lhes que a terra se chamava Algarve e que o cabo se chamava promontório Sacro, antigo nome de Sagres.
Devido aos estragos da tempestade, o barco encalhou entre Sagres e o Cabo de S. Vicente. Para fugir a embarcações piratas, os devotos desembarcaram a sua preciosa relíquia. O comandante do navio prometera-lhe continuar a viagem depois de passado o perigo dos corsários, mas nunca mais apareceu, pelo que decidiram construir na falésia uma ermida e um mosteiro em memória de S. Vicente.
Será possível imaginar, sem dificuldade, o pequeno barco a percorrer toda a costa algarvia, as falésias douradas sucedendo-se a praias de areais claros, até chegar ao imponente promontório de Sagres, logo seguido do Cabo de São Vicente. Ainda hoje, muitos séculos volvidos, a natureza do lugar mantém-se impoluta e cheia de encanto.
Continuando a lenda, o primeiro rei de Portugal D. Afonso Henriques, soube de um “lugar santo” a Sul onde estariam relíquias sagradas.
Logo ordenou uma expedição, para as trazer para Lisboa, pois nessa altura o Algarve era ainda terra de mouros e não pertencia ao reino de Portugal.
Todavia, o tempo apagara os vestígios da primitiva ermida e os cristãos que a construíram não se destrinçavam da população árabe.
Porém, o capitão do navio ao navegar junto da falésia foi surpreendido por um bando corvos, e seguindo-os, o enviado do Rei encontrou o esconderijo onde estava o sepulcro. Extraordinariamente as aves, mantiveram o seu secular papel de guardiãs de S. Vicente, e nos mastros do navio seguiram até Lisboa. Em honra desta lenda, os corvos figuram nas armas da capital.
Curiosamente, os corvos são das aves que se podem encontrar entre a avifauna da costa Sagres, marca desde sempre a história de Portugal, como um lugar de sonho e de Descoberta.

 

Lenda das Rosas, Rainha Santa Isabel

Chegara o mês de Janeiro. Em Coimbra, as casas das monjas de Santa Clara, quase destruídas pelas cheias do Mondego, reconstruíram-se rapidamente. Isso fora possível porque a rainha Dona Isabel velava por elas. Quando algum desgraçado se via sem pão dentro dum lar minado pela doença, logo procurava a sua rainha. E se nem sempre regressava com saúde para o corpo, pelo menos trazia pão para a boca, e palavras tão lindas ressoando aos seus ouvidos, que por si só já constituíam consolação para o seu espírito.

De todos, essa esposa e filha de reis cuidava como se fossem pessoas suas. Levava o seu zelo ao ponto de ir ela própria vigiar os trabalhos em curso nas casas das monjas. E os operários, desvanecidos com a real presença, e ainda com os auxílios monetários que Dona Isabel trazia aos mais necessitados, trabalhavam com redobrado ardor.

Porém, como acontece neste mundo, a rainha não tinha somente amigos. E certa vez um despeitado da corte procurou azedar o ânimo de el-rei D. Dinis. Aproveitando um dos momentos em que estava a sós com o rei, encetou o diálogo que há muito andava bailando no seu cérebro:
— Perdoai-me, Senhor, se me atrevo a falar-vos num assunto que me traz preocupado.
O rei olhou-o com certa altivez.
— Deixai-vos de rodeios. Dizei o que pretendeis. Continuar a ler “Lenda das Rosas, Rainha Santa Isabel”

Lenda da padeira de Aljubarrota

Brites de Almeida era uma mulher feia, forte, com um estilo de homem. Ela nasceu em Faro e a sua família era muito pobre e humilde. Foi criada praticamente sozinha, ficou órfã aos vinte anos e não fazia mais nada se não andar metida em brigas e aprendeu a manejar a espada e o pau. Toda a gente tinha medo dela. Houve um soldado que estava encantado com a bravura dela e resolveu propor-lhe casamento. Ela a única condição que ela propôs foi lutarem antes do casamento, para ver se ele era forte. Só que ela venceu e ele ficou ferido de morte. Ela começou a ser perseguida pela justiça e fugiu para Castela. Mas na viagem, que foi de barco, foi capturada e foi vendida como escrava. Depois de muito trabalho conseguiu fugir com a ajuda de outros dois escravos

Continuar a ler “Lenda da padeira de Aljubarrota”

Lenda das amendoeiras em flor

Era uma vez, há muito muito tempo antes da independência de Portugal, quando o Algarve ou Al- Garbh ainda pertencia aos Mouros, reinava Ibne-Almundim, guerreiro temível que nunca tinha conhecido uma derrota.

Ora, um dia, após mais uma batalha da qual saiu vencedor contra um senhor dos países do Norte, surgiu, perante os prisoneiros, uma linda princesa. Cedo o Rei apaixonou-se por essa beleza nórdica de nome Gilda. O amor foi correspondido e marcaram logo casamento.

Porém, apesar das festividades e do seu amor pelo califa, a princesa ia ficando cada vez mais triste e melancólica até que um dia já não conseguiu levantar-se da cama.

Apavorado, o rei mandou chamar todos os sábios do país para que encontrassem uma cura de tão estranha doença que se tinha apoderado da sua amada. Mas nada conseguiram para melhorar a saúde da princesa.

Até que um dia um velho poeta nórdico prisioneiro do rei, em troca da sua liberdade, disse que sabia de que mal sofria a princesa. Revelou então ao Rei que a bela Gilda sofria de nostalgia da brancura dos campos cobertos de neve do seu país natal.

O rei ordenou então que plantassem junto ao palácio milhares de amendoeiras para que quando florissem cobrissem a terra de um manto branco. Ao chegar a primavera, o rei levou a princesa até à janela do terraço, que maravilhada com tão lindo espetáculo, conseguiu iludir as saudades, recuperando a vontade e alegria de viver.

Fonte: Gentil Marques Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 205-211